LAB

Laboratório Outros Lugares e Práticas em Performance

Textos

31 de Agosto < Narrativa ‘Do fruidor e sua (im)permanência >

Inicio esse texto como que contando estórias. Ou uma estória: a narrativa de um percurso, de fato realizado, de um percurso como fruidor convidado a participar de certas obras: obras em corpo, em vídeo, em caneta e papel, em som. Ensaio, aqui, o potencial das performances – ou obras – quando contadas como pequenas narrativas, como sugere Eleonora Fabião na sua escrita[1]. Conto estória porque contar estórias também é uma forma de fazer arte: é também uma performance. E mais, conto estórias de performances e de obras porque, assim como disse outra vez um artista, o grande potencial das performances é também seu poder imaginativo, são as imagens que, na sua narração e na sua contação, elas produzem, e nas quais embarcamos, ora para compreendê-las, ora para captá-las no seu caráter fugidio.

 

***

 

Foi assim:

Cheguei lá e tinha uma mulher cortando cocos. Oferecendo-se a abrir-lhes a quem chegasse ao local, ela sentava ao chão, em cima de papelão, não falava português e usava um chapéu de palha, mesmo sem estar sob o sol. Usava facão, mas também pinça para abrir os cocos. Ao longo da tarde, bebeu quinze cocos, e perdeu de conta quantos cocos havia ofertado. Aprendera a fazer esse ofício nas andanças pela cidade, pela conversa com os cortadores de coco, por um ou outro vídeo do Youtube.

 

Depois, tinha uma mulher ensinando a escovar os dentes. Era loura, falava em português claro, e estava destinada a tratar das nossas placas bacterianas. A exterminá-las. Durante cerca de trinta ou quarenta minutos, nós sentados e ela em pé, ela nos mostrou nossas placas e nos estimulou a apenas sair dali com as placas extintas, os dentes limpos e brancos, encerados. Enquanto isso, cuspíamos nossa saliva em galões de água mineral de 10 litros, esvaziados, que comportariam a saliva de todo aquele dia, de todos os que limpariam seus dentes àquela tarde.

 

Mais para dentro eram vídeos. Um, em cima de peças de quebra-cabeça, era um registro de um rapaz que brincava de bola num campo vasto, mas esvaziado de gente; ia, vinha, girava em torno da bola, andava, corria, pouco chutava. Não me importei e continuei. Haviam me dito sobre o banheiro.

E ali, no banheiro, havia um rapaz brincando com sua piroca. Por baixo de sua bermuda, de peito aberto e sem camisa, moreno guapo, peludo, estava ali como quem não estava ou não se importava em estar, ou se deixava estar sem nenhuma pretensão. Parecia mesmo um corpo presente, uma excitação em potencial me tomou. A piroca ali, não ereta, mas de traços visíveis por baixo da bermuda de tactel, e ele pegava nela, e eu olhava muito aquilo.

O vídeo era de um olhar voyeur, alguém-câmera subjetiva, que espreitava por pequenos espaços de uma persiana. Ali, eu queria mesmo um constrangimento, alguém que entrasse comigo e fechasse aquela porta, de alguém que insistisse em entrar e ocupar o cubículo comigo e com aquele cara-vídeo-piroca. Que talvez se masturbasse.

 

Fui ali em cima, subi escada. Pequenos registros, cenas de vídeo. Ali embaixo, um vídeo, ou um vídeo-instalação, algumas pessoas que se pesavam numa balança não-presente, imaginada e imaginável.

 

***

            Estabeleço aqui meu lugar de fala: sou um fruidor, aquele que recebe as obras, mas delas também participa: por meio da fala, dos gestos, e também dos afetos, do campo afetivo de que participa. Mas também de alguém que comunga o espaço, que para ele se sentiu convidado a entrar e interagir, ainda que parecesse mesmo um lugar reservado ou fechado. São relatos, pequenas estórias das obras que fruí naquele sábado, aos trinta e um dias de agosto do ano de 2013. Era o resultado das pesquisas realizadas pelos artistas – Milena, Pablo, Nathalie, Walmeri, Solón e Paula – participantes, naquela semana anterior, do LAB, de 24 de agosto a 03 de setembro em Fortaleza.

Portanto, sendo fruidor, e querendo pensar a performance, coloco-me a pensar a experiência do fruidor como uma performance. Que caminhos operar como fruidor? Será que se trata de se deixar levar pelos percursos pensados pelos artistas? Trata-se de respeitar esses caminhos ou de operar desvios, outros gestos não pensados de antemão? Trata-se de respeitar a proposta do artista, um acordo previamente estabelecido entre artista- propositor e fruidor-participante, ou de fazer desproposições e profanar aquele espaço ou o gesto esperado?

Minha postura, confesso, foi a de seguir a proposição dos artistas, de ali me inserir, de fato, como um fruidor. Dentro do rol de gestos possíveis e previsíveis. Tomei do coco aberto e recebido gentilmente de Paula; escovei meus dentes até que desaparecessem todas as placas baterianas, como propôs Nathalie; mijei adequadamente no banheiro onde estava a instalação de Pablo, escutei e dancei os sons captados e editados por Milena, e me pesei na balança da instalação de Walmeri. Fui adequado às obras. Mas essa adequação não é de todo um ato “passivo”, de apenas recepção da obra. Estava, a todo o tempo, a pensar: a pensar nas obras, a pensar na proposição dos artistas: o que eles estão propondo, o que eles querem operar, o que querem criar nesse espaço? A pensar na poética dos artistas que levou àquela obra: que percursos foram feitos, que imagens foram vistas, o que surgiu disso tudo?

Há, portanto, premente, um acordo firmado entre artista-propositor e o fruidor-participante, alguns mais fechados, com um programa próprio, de tantos minutos, com começo, meio, fim, enquanto outros são mais abertos aos acontecimentos, aos gestos vários, à participação e ao acaso. Foi sobre esse acordo, ou experienciando ou vivendo, ali, esse acordo, que me pus em potência, em movimento. E isso não apenas experimentando as obras. Pensar a poética e a estética das obras e desse acordo mais ou menos implícito, é também catar sinais, signos.

E aí, a obra é apenas mais um signo, que articulo com as demais obras, mas também com as conversas, com os textos do blogue, com as fotos também expostas; fico pensando (imaginando) os percursos que foram feitos, mas também as peculiaridades e singularidades de cada um desses artistas, o que pesquisam, o que fazem, o que já fizeram. Monto, como as peças de uma das instalações ali presentes, um quebra-cabeça de signos diversos, e penso estórias: imagino essas ações, fixo esses signos e dou-lhes significado, estabeleço narrativas: constituo, como o diz Jacques Rancière[2], ficções: ficção não como fingimento ou mentira (em um regime de verdadeiro e falso), mas como criação por meio de signos.

Talvez aqui esteja a chave da performance, a atividade do fruidor de obras artísticas, ou dos participantes da performance. Deixando espaço, para além dessa participação, de outras performances que o fruidor pode tomar: o de dizer não à participação, ou ainda, o de subverter esse acordo mais ou menos implícito que a obra requer e pede. Para daí, criar e operar outras performances, outros percursos.

 


[1]     Refiro-me ao texto escrito pela pesquisadora e performer intitulado Performance e Teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea e publicado na revista Sala Preta, v. 08. Disponível em http://revistas.usp.br/salapreta/article/view/57373/60355 . Acesso em 05 de setembro de 2013.

[2]     RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível. Estética e política. Trad. Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO Experimental org.; Ed. 34, 2005.

A convite: Emerson Cunha

29 de Agosto < Trabalho de Corpo III >

O trabalho de corpo entre os artistas teve início em torno da instalação “Ainda não consigo entender (2003)”, de Enrico Rocha, que mediou a mesa redonda da quarta-feira à noite. No espaço circular composto por peças de quebra-cabeça, os participantes do LAB produziram movimentos, assobios, risadas e diálogos.

Dentro desse lugar, pergunta-se: “o que é público?” Entre o que pode ou não ser público, surge naquela obra de arte a invenção de outros espaços e formas de convívio e de experiência individual. A experiência de corpo naquele lugar se envolve por gestos cotidianos como correr, falar, sentar, olhar, caminhar. As peças do quebra-cabeça se tornam fronteiras, e relações se estabelecem entre o que acontece no espaço ocupado no Cena 15 e o que acontece na rua.

Em seguida, foram rumo ao Parque do Cocó para conhecer o movimento de ocupação ‘#OcupeOCocó’.

Por Wilma Farias

28 de Agosto < Troca de experiências II >

Uma tarde de conversas e desejos.

Os artistas trocaram impressões sobre o que têm experienciado em Fortaleza, trazendo sons, imagens e ideias. Levantaram possibilidades de performance e de como compartilhar o que estão produzindo nos diferentes espaços onde realizam suas experiências.

Por Wilma Farias

27 de Agosto  < Troca de experiências I >

O encontro de hoje começou às 14h –  entre o ontem e o amanhã – para uma troca de experiências do LAB e delinear os passos seguintes. Da rua, o sino do carrinho de um vendedor ambulante entrou pelas janelas e se espalhou no terceiro andar do Cena 15.

Entre os sons que vinham de fora e as referências do dia anterior, a conversa trouxe pontos para a composição da rede de convívio. Entre tempos, espaços, confrontos, práticas, tensionamentos, interesses, experiências, percursos, expectativas, decisões, incômodos, processos, etc., surgiram algumas questões: como estamos nos conhecendo? Como interligar lugares desconhecidos? Que vivência comum nos une? Que relações buscamos entre o nosso trabalho de corpo e as nossas experiências? Como produzir trabalhos sem acomodar-se em caminhos mapeados por experiências anteriores?

Envolvidos em perguntas e algumas impressões, os artistas seguiram para experimentações no Poço da Draga.

Por Wilma Farias

26 de Agosto < Trabalho de Corpo II + Centro de Fortaleza >

Por volta das 13h chegamos ao nosso lugar de encontro: o Cena 15. Com paredes brancas e janelas vermelhas abertas, o terceiro andar recebia o vento que vinha de fora. Os artistas iniciaram um trabalho de corpo, juntos e individualmente, experimentando movimentos e suas relações com o espaço pela respiração e pelos pés.

Partimos da Rua José Avelino rumo à Praça do Ferreira, localizada no centro de Fortaleza. Aos poucos, cada artista foi inventando o seu modo de experienciar o percurso entre desvios, conversas com pessoas que encontravam, captura de imagens dos movimentos cotidianos, invenção de personagens, sinestesia, silêncio e intervenções.

Para alguns artistas os pontos que passavam na caminhada já eram conhecidos e para outros, novidade. Nas diferenças de olhar e interesse, eles faziam paradas e experimentavam alguns espaços: Feira da Sé, Mercado Central de Fortaleza, Raimundo dos Queijos, Praça dos Leões. Entre o individual e o coletivo em deriva na cidade, chegaram à Praça do Ferreira.

Em um banco da praça sentaram juntos a observar o lugar. Cada um no seu tempo começou a experimentar o espaço na produção de gestos, interações, observações, estranhamentos, etc. Ao fim da tarde retornaram ao Cena 15 para uma conversa e trocas. O encontro com pistas para as próximas experiências.

Por Wilma Farias

25 de Agosto  < Trabalho de Corpo I >

Hoje foi o dia de chegarmos ao Cena 15.

Dia de compartilharmos  os desejos, as expectativas e o porque de cada um estar aqui. Dia de discutir o que nos move neste LAB.

Corpo, emergência, espaço, arqueologia, oralidade, performance, performatividade, colaboração – alguns conceitos que permearam nossa discussão e nossas proposições.

Dia de planejamento, cronograma e, claro, performance!

Amanhã seguiremos para as ruas do centro da cidade.

Por Walmeri Ribeiro

24 de Agosto  < Titanzinho >

Entre o Porto do Mucuripe, o bairro Serviluz e a Praia do Futuro está o lugar do primeiro encontro do LAB: o Titanzinho. Um percurso e uma roda de conversa foram oferecidos pelos membros da Associação dos Moradores do Titanzinho juntamente com o  Coletivo  Pesquisa  In(ter)venções Audiovisuais das Juventudes. Sob a sombra de uma árvore, próxima ao Farol Velho do Mucuripe, nos encontramos por volta das 11h. De lá partimos para uma caminhada entre ruas e becos, espaços, intimidade e cotidiano.

Iniciamos a caminhada pelo Farol Velho, de onde podemos ter uma vista panorâmica do lugar. Entre conversas e dados históricos, andamos pelas ruas rumo à praia. Casas com portas e janelas abertas, crianças correndo, moradores conversando conosco e contando detalhes da rua onde estávamos passando, ao som de músicas em ritmo de brega e sertanejo, que ecoavam de dentro das casas.

Na caminhada, entramos em um beco que dava acesso à praia. O mar surgiu. Seguimos nosso caminho pelo amplo espaço de areia da praia entre surfistas, crianças, cachorros e arrecifes. O último ponto de parada, antes do almoço, foi na Escola Beneficente de Surf Titanzinho, onde conhecemos o Fera: o inventor do surf imaginário e de quem ouvimos a frase Florescer para os lados”.

Peixe e Moqueca pescados no mar do Titanzinho foram os pratos principais de nosso almoço. Logo depois, seguimos para a Associação dos Moradores, onde surgiram conversas entre os participantes do LAB, alguns membros da Associação, o Coletivo Pesquisa In(ter)venções e convidados. As conversas circularam entre algumas palavras: Espaços. Caminhos. Relações. Fronteiras. Porosidade. Comum. Delicadeza. Microambiências. Referência. Sinestesia. Brincar. E, para encerrar as atividades do dia, um pôr do sol e o vento, soprando energias para o  florescer do LAB em Fortaleza.

Por Wilma Farias

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